sábado, 28 de Junho de 2008

Robert Mugabe e a decadência do Ocidente

Ao longo dos últimos, os EUA e a UE impuseram sanções ao Presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, e aos colaboradores governamentais mais directos. No poder há mais 25 anos, Mugabe é mentor e a fave visível de um dos regime mais corruptos e despóticos do mundo, regularmente citado por ONG´s de direitos humanos, liberdades e garantias dos cidadãos, variando desde prisões arbitrárias, práticas de tortura e perseguições políticas, até à expropriação de propriedades agrícolas e deslocação forçada de milhares de residentes citadinos para as zonas rurais.

Através da aplicação de sanções, os EUA e a UE tentaram isolar o regime de Mugabe a nível internacional e, deste forma, contribuir para uma transição sem recorrer ao uso da força. Mas este cancro vai persistir com uns EUA atolada no Iraque e no graveyard of impires, Afeganistão, a Europa presa nas suas constitucionalidades e envolta numa cobardia e uma SADC sem capacidade de acção.

Quanto à a China, como óbvio não se associa a esses esforços. Nem quer ouvir falar em direitos humanos. Aliás Mugabe até saúda o apoio chinês... look East, diz Robert Mugabe pois Pequim contrbui para a manutenção deste, e de muitos outros, cancers no continente africano. Esta forma de actuação chinesa no Zimbabwe é um bom exemplo do paragmatismo de Pequim, baseando-se no aproveitamento de “janelas de oportunidade” existentes em países ostracizados pela comunidade internacional, nomeadamente pela mais fácil concretização de negócios, em face da inexistência de concorrência por parte das grandes multinacionais norte-americanas e europeias.

Aqui, chegamos ao que interessa ao debate.O Zimbwe apenas serviu de exemplo. A nossa questão de partida não é saber se a democracia é universal, porque não é, mas qual dever ser a atitude do Ocidente em relação aos seus princípios fundamentais?

Bom se o que nos interessa é unica e exclusivamente, não devemos provmover a democracia, porque é um complexo projecto de engenharia social, voltemos antes ao velho colonialismo pois alguns países africanos quando estavam sob o domínio colonial eram mais estáveis.

O argumento utilitário da estabilidade do sistema regional e global, infelizamente é um dos sinais claros da fraqueza e de declínio do Ocidente. O core da questão não é saber se o paradigma do Fim da História, de Francis Fukuyama, está certo. Se o Zimbabwe quer construir uma democracia isso é com os seus cidadãos, com a ajuda necessária ajuda externa. Que relevo deve ter a promoção dos princípios democráticos e de boa governação na política externa de um Estado democrático, sobretudo dos EUA? Em temos académicos se devem ser os valores ou o poder, ou dito de outra forma, a ideologia ou a raison d´état os vectores da política externa, não passa de uma fuga para a frente.

Em resumo, neste framework será que os dirigentes políticos europeus ainda não entenderam as nossas maiores ameças à segurança não é um Irão nuclear, o terrorismo islamo-fascista...mas a cobardia tranquila em que vive a Europa desde 1945.

E agora, que fazer?

quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Here I AM...I´m back

Após meses sem escrever uma crónica devido a falta de tempo. Muita coisa se passou na cena política nacional e internacional. A nível foi a Dra. Manuela Ferreira Leite que toma as rédeas do poder no PSD. Vamos lá ver como se comporta agora na oposição. Em África o sr. Mugabe delira e agora julga que ainda estamos na Europa das monarquias absolutistas. Na China tivemos a Primavera de Lassa, com a revolta dos monges tibetanos e Beijing não reage como em 1989 porque está prestes a acolher uns Jogos Olímpicos. Nos EUA a corrida presidencial ficou agora mais clara: em Novembro um confronto Obama Vs. McCain. A economia da fome com crise alimentar mundial foi da maior vergonha...enfim tanta coisa para se nas próximas entradas.

segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Irão nuclear

O Irão continua prossegue com a sua política de provocação da comunidade internacional. Na passado dia 4 de Fevereiro o Irão inaugurou o seu primeiro centro espacial e testa foguetão que há-de lançar satélites.

Já o recente relatório do National Intelligence Estimate (NIE) apenas veio gerar mais dúvidas no seio da comunidade internacional acerca das verdadeiras intenções do programa nuclear do iraniano. Por um lado, afirma, com um grau de alta confiança, que Teerão suspendeu no Outono de 2003 o seu programa de armas nucleares. Mas por outro afirma, com um grau de confiança média a alta, que o Irão não coloca de lado a opção de produzir essas armas. Portanto, estamos perante um relatório pouco rigoroso e muito duvidoso. Em primeiro lugar, a definição de programa de armas nucleares é redutora, restringindo-se à terceira parte de um programa nuclear para fins militares, construção de uma ogiva. Lebremo-nos que esses programas nucleares são composto por três partes: 1) Produção de urânio enriquecido; 2) Produção de mísseis balísticos; 3) Construção de uma ogiva para colocar nos mísseis.Ou seja, de acordo com esse relatório concluiriamos que o Irão está longe de ter armas atómicas

As preocupações internacionais centraram-se, como é natural, logo no primeiro ponto, sem o qual não se consegue produzir armas nucleares. Mas estando na posse de urânio suficiente e já com mísseis balísticos, rapidamente se pode construir uma arma atómica.

O futuro do Irão, assim como a Coreia do Norte, permanece uma incerteza que o Obama o McCain terão de dar uma resposta cabal...

Acompe esta «Crise cubana ao retardador» num jornal perto de si

sábado, 9 de Fevereiro de 2008

O regresso da Rússia e a Europa


Desde o início do século XVII, com a emergência, sob Pedro, o grande, da Rússia como grande potência epirocrática tem sido um quebra-cabeças para europeus. Como lidar com este vasto país, complexado com a Síndrome de Cerco e que embarcou em projectos revolucionários, como por exemplo com a Santa Aliança do Czar Alexandre I; ou com o Marxismo-Leninismo de Vladmir Ilich e Estaline?

A Rússia e a UE geograficamente são vizinhos, mas a convivência entre ambos foi sempre difícil. Assim, a nossa estratégia desde o fim da I Guerra Mundial até à actualidade tem sido dupla
  • Por um lado empurramos a Rússia para longe da Europa, cercando-a com Estados-tampão, como aconteceu no período após a paz de Brest-Litovsk (1917) e Tratado de Versailles (1919) ou no período pós implosão da ex-URSS em 1991 com a libertação dos seus antigos Estados-satélite.
  • Por outro lado, tentamo-nos aproximar de Moscovo como aconteceu durante a détente com a famosa Ostpolitik de Willy Brandtou no período pós implosão em que há uma esperança de que a Rússia se torne liberal e democrática, mas rapidamente essa esperança desvaneceu-se em 2005.
Actualmente essas relações estão mais tensas que nunca perante a tentativa de Moscovo recuperar o seu potencial estratégico perdido desde a implosão da URSS. Putin está determinado em fazer perceber ao Ocidente que há um preço a pagar pelas "humilhações" impostas pelo Ocidente desde o fim da Guerra-Fria - com expansão da OTAN e da UE à tradicional esfera de influência russa. Como já referimos, apesar de serem vizinhos têm visões diferentes das Relações Internacionais: por um lado temos uma UE pós-moderna, que pretende transcender o poder e a construir uma ordem baseada em leis e instituições. Por outro temos uma Russia cuja visão é dominada pelo imperialismo à moda do século XIX. Obviamente que a história ajudou a moldar esta diferença. A UE é uma resposta aos sangrentos conflitos que assolaram o continente no século XX, com o nacionalismo e a política de poder a destruirem a Europa em duas Guerras Mundiais. A Rússia de Putin é conduzida, segundo a percepção do falhanço das políticas pós soviéticas. Os pesadelos da Europa eram as políticas agressivas dos regimes fascistas da década de 1930, a já os pesadelos russos são da década de 1990. Enquanto a Europa solucionou os seus problemas transcendendo o Estado-Nação e poder. Para a Rússia a solução passa por uma restauração do que o velho continente abandonou.

O que acontece quando uma entidade pós-moderna, como a UE, enfenta uma potência tipicamente imperialista? Os contornos de um conflito já são visíveis!

A nível de disputas diplomáticas sobre o Kosovo, Ucrânia, Georgia e Estónia. Trocas diplomáticas "sujas" entre Londres e Moscovo. Ao nível do uso dos seus abundantes hidrocarbonetos para fins políticos, que tem permitido a Moscovo praticar uma estratégia de grande alcance. Esta tem dado cada vez melhores resultados em virtude do aumento das necessidades energéticas, e consequentemente dos preços nos mercados mundiais. Esta estratégia certamente continuará a vigorar mesmo com o novo presidente Medvedev, pois tem garantido à Rússia uma recuperação do seu potencial estratégico, podendo recriar uma teia de influências e até de dependências. A maioria dos PECO, e alguns países da Europa Ocidental dependem fortemente da energia fornecida pela Rússia, uma vulnerabilidade que o Kremlin já mostrou estar disposto a tirar proveito.

Como ficou demonstrado com a "Guerra do Gás" com a Ucrânia, com o objectivo de fazer com que Kiev pagasse a preço de mercado o gás que lhe é fundamental. Talvez o resultado das eleições legislativas não tinha sido atípico para Moscovo, quando o partido de Viktor Yuschenko foi derrotado pelos outros dois maiores partidos, nomeadamente o pró-russo, que tornou-se no partido mais votado na Ucrânia, recuperando da derrota provocada pela "Revolução Laranja", sem impedir a maioria do conjunto das forças que desencadearam essa revolução, embora mande a prudência uma redução no ritmo de aproximação ao Ocidente. A Rússia continua determinada em isolar a Ucrânia de alguns dos países que são abastecidos pelo pipeline que atravessa o país, como a Húngria ou a República Checa. Numa recente visita à capital destes países, Putin sugeriu que estes continuassem a ser abastecidos por gás russo, mas vindo dum outro gasoluto que vem do Mar Negro, ligando a Rússia à Turquia, que seguiria até à Europa de Sul (Balcãs e Sul de Itália) e Israel.

Na Georgia, também se verificou um incidente, apesar das causas nunca terem sido bem esclarecidas, que mostrou a sua dependência energética face à Rússia. Não só estes países, outros que estão na mesma situação e a UE tiveram em atenção estes acontecimentos, o que poderá provocar uma aceleração da diversificação das fontes de energia que os seus países utilizam.

Mas existem problemas de condicionamento estratégico dos países da UE, por causa do relacionamento entre si, influenciado por raízes históricas profundas, como é o caso da rivalidade germano-polaca. A 8 Setembro de 2005, Putin e o ex-Chanceler alemão, Schroder, acordaram a construção de um pipeline através do Báltico, evitando-se a passagem pela Polónia, que assim deixa de poder exercer represálias contra a Rússia, cortando o abastecimento de gás ao Ocidente, o que é positivo para Moscovo pois prejudica um país que se tornou num acérrimo defensor da política de Bush como a guerra do Iraque e a construção do escudo anti-míssil.

Ao mesmo tempo que faz estas jogadas na Europa, prepara-se para para construir um gasoduto para a China, em vez do Japão que é o "procurador" estratégico dos EUA no Nordeste asiático, desgastando mais o poder dos norte-americanos.

A Rússia tem também levado a cabo outras acções desfavoráveis ao Ocidente como acontece no Médio Oriente/Golfo Pérsico. Apesar de ainda não ter poder para actuar directamente, como acontece na sua tradicional esfera de influência, vai respondendo indirectamente no centro de conflitos do mundo, por exemplo no conflito israelo-palestiniano ao receber o Hamas após vencer as eleições na Palestina ou no seu posicionamento perante o programa nuclear iraniano.

Esta grande stratégia, enquadra-se num movimento geopolítico, cuja teoria defende que a única forma de contrariar a ingerência no "estrangeiro próximo" russo e aceder aos mares quentes, seria através de um eixo formado pelas potências da Eurásia - movimento neo-eurasianista. Este associaria a Rússia, Alemanha, Índia, China, e talvez o Irão. Já foram levadas algumas estratégias que se encaixam neste enquadramento teórico.

Falhada a CEI, foi acordado um sistema de segurança colectiva para a luta contra o terrorismo internacional entre Rússia, Arménia, Bielorússia, Cazaquistão, Quirguistão, e Tadjiquistão, que criaram uma força de reacção rápida.

A Organização de Cooperação da Ásia Central, com quartel-general em Moscovo, que engloba a Rússia, o Cazquistão, Uzbequistão, o Quirguistão e Tadjiquistão, que tem finalidades económicas e político/militares. Na Cimeira de Outubro de 2005, decidiu avançar-se para a construção de um Mercado Comum da Ásia Central, e na Cimeira de Fevereiro de 2006, anunciou-se a criação de um grupo de forças militares para intervenção no espaço central da Ásia.

Mas a estratégia mais expressiva e com arrojados objectivos, à luz da teoria neo-eurasiana é a Organização de Cooperação de Shangai. Inicialmente conhecida como os "Cinco de Shangai", formou-se em 1996 nomeadamente para desmilitarizar a fronteira entre a China e a ex-URSS. Em 2001, aderiu à organização o Uzbequistão e a organização adoptou a designação actual. Em 2004 a Mongólia ganhou o estatuto de observadora, seguindo-se, em 2005, Irão; Paquistão; e Índia. Desde que a OCS adquiriu influência regional tem abordado assuntos como comércio, contra-terrorismo, e tráfico de droga. A organização, contrariamente à OTAN ainda não é um pacto de defesa mútua, irá realizar exercícios militares conjuntos no Tadjiquistão, assim como treinos anti-terroristas nos Urais russos em 2009. Alguns analistas apontam para uma convergência de interesses entre os membros nos últimos anos, incluindo melhores relações entre Moscovo e Pequim e a ameaça que representada pela presença de forças norte-americanas na região. Outros analistas argumentam que a OCS está ser usada pela Rússia e China como um meio para a afirmação da sua influência na Ásia Central e conter o acesso dos EUA às vastas reservas energéticas na região. No próxima dia 15 de Junho vai decorrer mais um encontro para se discutir assuntos de segurança na Ásia Central. Começando como um meio para uma maior confiança mútua na resolução de conflitos fronteiriços, nos últimos cresceu em estatura e assuntos a ser abordados. Em Julho último fez manchetes internacionais ao enviar um prazo para a retirada das forças americanas do Uzbequistão, uma decisão que levou muitos analistas a observarem esta organização como um poderoso reduto anti-americano. Outros argumentam que as fricções herdadas do tempo da Guerra-Fria entre ex-URSS e a China, a OCS não serão uma ameaça aos interesse nacional dos EUA na Ásia Central. Entretanto, estão a decorrer negociações para alargar os fins da organização que inclui, entre outras coisas, uma maior cooperação militar e de intelligence, e exercícios conjuntos anti-terroristas. Por fim, há uma crescente especulação de que o Irão, membro observador, irá juntar-se à organização, sendo esperada a presença Ahmadinejad na Cimeira de Shangai. Fica uma questão por responder!

Perante este cenário, a Europa tem boas razões para estar preocupada. Durante a década de 1990 apostamos demasiado na geoeconomia em detrimento da geopolítica. Reduziram drasticamente os orçamentos para a defesa, calculando que o hard power, num mundo dominado pela revolução da informação, fosse substituído pelo soft power. Em Bruxelas imaginava-se que o mundo se tornaria numa réplica da UE, e quando isso acontecesse, a União tornar-se-ia numa "superpotência pós-moderna". Durante a década de 1990 foi assim: com uma Rússia prostrada, a atracção que a Europa exercia, juntamente com a promessa de segurança fornecida pelos EUA. Todos os antigos países que viveram na órbita soviética até 1989/1991 desejavam entrar na UE, respondendo assim ao apelo, para prafrasear Timothy Garton Arsh, do "Império do Silêncio".

Actualmente, contudo os sucessivos alargamentos a Leste pararam porque, como já vimos num post anterior, a Europa está a braços com várias crises e com o alargamento à Turquia num impasse. Além disso, a Europa também teme a ressurgência da Rússia. Hoje vejo que com o alargamento de 2004 e de 2007 a Europa adquiriu um novo problema a Leste, ou melhor ou velho problema de Leste - uma disputa de vários séculos entre a Rússia e os seus vizinhos próximos, numa atitude nitidamente de potência imperalista do século XIX.

Quando a Rússia estava enfraquecida, pobre e ansiosa por se integrar no Ocidente não era um problema. Mas a Rússia está de volta, rica e de "orgulho ferido", procurando não juntar-se à Europa mas sim recuperar o estatuto de grande potência. Uma vez Putin lamentou a implosão da URSS, considerado na sua opinião o maior desastre geopolítico do século XXI, procurando agora recuperar a influência predominante junto dos Estados Bálticos e da Europa de Leste, bem com sobre a Ucrânia, Georgia e Moldova e o resto do que a Rússia considera ser a sua tradicional esfera de influência. Mas parte desses antigos Estados são actualmente parte da Europa, sendo estes parte do que poderemos chamar de "nova vizinhança".

Assim, em pleno século XXI a Europa volta a enfrentar a ameaça russa que se comporta como se fosse um dos Impérios que dominaram a Europa no século XIX. Após uma década de recuo voluntário, a Rússia volta a atacar a poderosa força de atracção da Europa, utilizando os clássicos meios de mostrar força. Moscovo impôs um embargo comercial contra a Georgia; recusou esperodicamente fornecer petróleo à Lituânia, Letónia e Bielorússia; cortou no fornecimento de gás à Ucrânia e à Moldova; iniciou um conflito diplomático com a Estónia, suspendendo todo o tráfego ferroviário e atacando os computadores governamentais por causa de Tallin ter construído um memorial relembrando os horrores da época de ocupação soviética. Apoia movimentos separatistas na Georgia e mantem forças em território da Georgia e Moldova. Retirou-se do Tratado para a Forças Convencionais na Europa, ficando livre para colocar forças onde sejam necessárias na sua fronteira Ocidental.

Sondagens têm demonstrado que os Europeus têm uma má impressão sobre o seu vizinho russo. No último ano, Nicolas Sarkozy alertou para o facto de o regresso imponente da Rússia à cena internacional estar a ser feito através dos seus recursos, petróleo e gás, com uma certa brutalidade. Até o ministro da defesa filandês teme que a força militar se torne uma vez mais o elemento preponderante na forma como a Rússia conduz a sua política externa.

Mas a Europa está equipada deficientemente a nível institucional e incapaz de responder com vigor a esta ameaça.

Não é difícil imaginar as fricções ao longo da fronteira euro-russa a terminar numa confrontação. Por exemplo, uma crise por causa da Ucrânia, que quer aderir à OTAN, poderia causar um conflito com a Rússia; conflitos entre o governo georgiano e as forças separatistas da Abkhazia ou da Ossétia do Sul podem lançar um conflito militar entre Tiblisi e Moscovo, a Rússia já ameaçou que reconheceria a aindependência destes separatistas caso se anunciasse a independência do Kosovo. O que fariam os EUA e a UE se Rússia usar a força na Ucrânia e na Georgia? Podem bem não fazer nada.

Em suma, uma Europa pós-moderna dificilmente pode voltar confrontar-se com uma grande potência, como no passado, e tudo fará para evitá-la . Quanto aos EUA, qualquer mudança fundamental na sua política externa para a Rússia terá que esperar pelas directrizes da nova Administração. Todavia, uma eventual confronto da Rússia com a Ucrânia ou a Georgia irá abrir um mundo novo, ou talvez nos traga um velho mundo, uma reprise da história da Europa do século XIX. Muitos europeus ainda querem acriditar de que esta era ainda dominada pela lógica da geoeconomia. Mas ainda vivemos numa era em que geopolítica, competição pela segurança não foram purgadas das Relações Internacionais.

Assim, perante este cenário, Nicolas Sarkozy tem como objectivo na próxima presidência francesa do Conselho, durante o segundo semestre de 2008, rever a Estratégia de Segurança Europeia. Pretendendo, entre outros objectivos, incluir a Rússia como ameaça estadual à segurança europeia, naturalmente não como foi durante a Guerra-Fria, mas em termos económicos, militares e de segurança energética. É um bom primeiro passo, mas há a fazer para fazer a esta ameaça à segurança europeia...


sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Tributo a Padre António Vieira


No passado dia 6 de Fevereiro, comemorou-se o quarto centenário do nascimento de Padre António Vieira, um dos grandes vultos da cultura portuguesa. A sua acção não se limitou ao nível religioso tendo-se destacado a nível oratório e a nível político/diplomático.

António Vieira nascido na cidade de Lisboa, parte ainda criança (com cerca de 6 anos de idade) para o Brasil porque o seu pai, Cristovão Vieira Ravasco, foi nomeado para o cargo de escrivão na Relação da Baía em 1614. Aí recebe uma educação jesuíta, tendo frequentado o Colégio dos Jesuítas, despertado pela religião e pela audição de uma pregação do Padre Manuel Couto ingressando na Companhia de Jesus em 1623. Em Dezembro de 1634 é ordenado padre.

Regressado a Portugal, é apresentado na Corte e Padre António Vieira tornou-se em pouco tempo no conselheiro favorito do monarca e pregador régio. Assim, participou activamente na diplomacia da restauração de D. João IV, viajando pela Holanda, França e pela actual Itália. A sua influência junto da Corte é tal forma poderosa, que nem os próprios Jesuítas podiam tolerar. Assim, em 1652 é enviado para o Brasil.

Na sua estadia no Brasil, tomou rapidamente consciência do sofrimento a que estevam sujeitos os negros e os indígenas. Assim, Padre António Vieira dedicou toda a sua vida em prol das populações indefesas, dos direitos direitos dos índios brasileiros reclamando a sua liberdade. Portanto defende uma série de princípios que podem ser enquadrados no que podemos apelidar de política social. Esta revolta contra o stato-quo valeram-lhe a expulsão do território, regrassando a Lisboa em 1661, onde recebe ordem para se fixar primeiro no Porto e mais tarde em Coimbra

Para além da luta travada em nome dessa causa, mostra-se favorável à imigração de Cristãos-novos para Portugal, na sua óptica fundamentais para o desenvolvimento do nosso país, tendo por isso sido preso preso pela Inquisição, o perdão surgirá já no reinado de D. Pedro II. Além disso, condenou veementemente os excessos da Inquisição. Promoveu a união das três classes sociais em torno de D. João IV, o Restaurador e denunciou a exploração do povo pela nobreza e clero.

Ainda regrassa ao Brasil em 1681, morrendo em 1697.

Padre António Vieira foi um brilhante orador, homem de defensor de causas nobres, lutando contra a os poderosos, um verdadeiro exemplo ainda actual. A sua capacidade persuasiva e a eloquência eram verdadeiras "armas" na sua crítica social. Figuram o seu espólio epistolar cerca de 500 cartas e cerca de 200 sermões. Todo este legado reflectem as suas preocupações quer de natureza religiosa, política, diplomática, missionária, apologética, social, literária ou panegírica. A nível económico aprecebeu-se de que a economia, ou seja, não deve ser a nobreza, como acontecia, a controlar o comércio colonial, mas sim a burguesia, sonhava com Portugal con sendo idêntica à Holanda (país desenvolvido e burguês). Por fim, apercebou-se que Portugal e Espanha, estavam completamente falidas e já não dominavam sozinhas o mundo - o Tratado de Tordesilhas (1494) já pertencia ao passado. Surgiam já novas potências coloniais emergentes, Holanda e Inglaterra, prontas a tomarem os seus lugares e acabarem com a doutrina do Mare Nostrum, pela doutrina do Mare liberum.

quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Render da guarda no Kremlin: continuidade ou mudança?


As próximas "eleições" presidenciais russas no próximo dia 2 de Março, com toda a certeza não serão tão emocionantes como as eleições primárias nos EUA. O seu resultado tornou-se claro quando Vladimir Putin indicou o seu sucessor - Dmitry Medvedev. E daqui poderiamos entrar numa intensa discussão sobre a democracia de gestão russa! Mas a intenção é analisar a conjuntura envolvente em torno das próximas "eleições".

Talvez, não sei quem sabe, o cenário de eleições livres se mantivesse com a permissão de um candidato na corrida contra Medvedev. No entanto, já vimos que o Kremlin não tem tempo para esses formalismos; recusando a candidatura de Mikhail Kasyanov, após o Primeiro-Ministro de Putin ter proibido a presença de uma missão de observação das eleições presidenciais russas. Os únicos dois "opositores" de Medvedev, nas próximas "eleições" do dia 2 de Março, serão o ultra-nacionalista Vladimir Zhirinovsky e o eterno líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov.

A justificação da Comissão Central de eleições para a recusa da candidatura de Mikhail Kasyanov, suporta-se no facto de que, de acordo com o organismo supracitado, alegadamente 13% dos dois milhões serem inválidas. Reunindo em tão poucas semanas esse número de assinaturas necessárias, para cumprir as exigências da lei eleitoral para candidatos independentes, sejamos realistas é praticamente impossível. Mas mais hilariante foi o facto de a Comissão ter aceite a candidatura de Andrei Bogdanov cujo seu partido, Partido Democrático, obteve apenas 90 mil votos nas últimas eleições para a Duma no passado mes de Dezembro, que elegeram Putin como próximo Primeiro-Ministrto.

O índice de popularidade de Kasyanov, inferior a 2%, dificilmente ameaçará Medvedev, que recentemente recusou-se a participar em debates televisivos, mas ainda assim domina domina a agenda-setting dos principais mass media russos através de promessas arrojadas como a de duplicar as reformas dos pensionistas e aumentar os ordenados.

Se a Comissão tivesse aceite a candidatura de Kasyanov dar-lhe-ia livre acesso imediato aos media, e pior ainda (isto na óptica dos interesses do Kremlin) legitimando-o de imediato como força de uma oposição genuiamente liberal. Mas, como vimos atrás, infelizmente tal não se sucedeu. Uma vez livre deste candidato, Medvedev pode agora apropriar alguma da sua retórica liberal. O discurso na proferido na passada semana perante os mandatários, escolhidos pelo Kremlin, foi "música" para os ouvidos ocidentais. Com um ar sincero, Medvedev falou da importância do pluralismo, da liberdade e da justiça. Ainda de acordo com Medvedev, os direitos de propriedade e meios de comunicação social livres são fundamentais na construção de uma democracia. E que a Rússia tem de se reger através da força da lei. No entanto ele admitiu que o país está num verdadeiro "nihilismo legal".

No mesmo dia, surge uma denuncia desse "nihilsmo legal" russo feita por Vasily Aleksanyan, um ex-gestor da Yukos, que tinha recorrido ao Supremo Tribunal para salvar-lhe a vida. Aleksanyan de 36 anos encontra-se em prisão preventiva desde Abril de 2006, acusado de fuga aos impostos e de desvio de dinheiro. Mas ao que parece, o seu verdadeiro crime foi ter defendido Mikhail Khodorkovsky, um magnata russo já preso. Entretanto, uns meses após a sua detenção foi-lhe diagnosticado que era portador de HIV/SIDA, mas durante os últimos 14 meses o tratamento necessário lhe tem sido prestado.

Especula-se que Vasily Aleksayan talvez sofra jé de tuberculose, e que a sua visão está de tal forma debilitada que já nem consegue ler as acusações de que é alvo. Quando falamos anteriormente que ele recorreu ao Supremo Tribunal, alegou que um investigador do caso chantageou-o prometendo-lhe tratamento médico se Aleksayan testemunha-se contra Mikhail Khodorkovsky de modo a imputa-lo de mais crimes. No entanto, Aleksayan recuso-se colaborar, perante tal recusa foi colocado numa cela "cheia de bolor, fungos estafilococo, uma bactéria que come a pele das suas vítimas". As suas alegações fizem recordar o tratamento a que os presos eram submetidos durante a o Estalinismo.

O Tribunal Europeu de Direitos Humanos ordenou que a Rússia transferisse Aleksanyan para um hospital especial, porém o governo não obedeceu a esta ordem. Se Aleksanyan falecer em custodia, o Tribunal poderá acusar a Rússia de violação do direito à vida, mas nada que preocupe as autoridades de Moscovo! Como resposta, esta semana Mikhail Khodorkovsky entrou em greve de fome.

Mesmo que o discurso de Medvedev esteja vazio de qualquer retórica, não deve ser rejeitado. Os dirigentes russos têm por hábito manter algumas das suas promessas - por exemplo, quando foi eleito Vladimir Putin manteve o compromisso de combater as oligarquias e restaurar o poder do Estado. De facto, Medvedev era um candidato independente e o seu discurso poderia ter dado uma réstia de esperança. O problema é que por detrás dele está Vladimir Putin, o seu Primeiro-Ministro, e talvez o mau político para as políticas, em teoria, audazes de Medvedev.

No próximo dia 2 de Março, Dmitry Medved vai tornar-se no próximo presidente da Rússia. Mas ficam bastantes dúvidas por esclarecer. Que tipo de relação terá o Presidente com Vladimir Putin? Como é que o poder vai ser distribuido entre eles? Quem vai governar de facto? Será que a Rússia vai ter de aprovar novas leis, uma nova constituição para dar mais poderes ao PM? Será que Putin está a arriscar a sua carreira política ao aceitar este papel secundário, tornando-se mais responsável pelas políticas socioeconómicas? São estas perguntas às quais gostaria de ter respostas concretas!!!

À priori, a Constituição russa não permite, como tivemos em Portugal durante o Estado Novo, o que se pode apelidar de Presidencialismo de Primeiro-Ministro. O Chefe de Estado tem uma vasta gama de poderes, que só por si indicam que Medvedev será um Presidente forte. Além disso, Medvedev é um homem com força de vontade e um admistrador com provas dadas.

Mas Putin será um PM forte, só por sem quem é. Afinal ele continuará, mesmo a longo prazo, a ser pessoa mais popular na Rússia. Perante este cenário implicará a formação de um sistema de governo com, pelo menos, dois centros de decisão - talvez em conjunto com o Partido Rússia Unido, o partido de Putin que obteve 64% dos votos nas últimas eleições parlamentares. Isto, diga-se de passagem, até significaria uma clara separação de poderes.

Quando decidiu candidatar-se a PM, Putin estava ciente do que podia esperar. Além de mais, ele já tinha desempenhado, durante vários meses em 1999, as funções de Primeiro-Ministro. Ou seja, tudo depende de quem é o Primeiro-Ministro! Muitas analistas têm desvalorizado o papel do PM. Mas este, de acordo com a constituição, é responsável pelo poder executivo e tem poderes para determinar a política interna e a política externa.

Assim sendo, o papel de PM depende da sua personalidade. Um chefe do exucutivo com personalidade (com muito peso político) pode "eclipsar" o Presidente. Exemplos: lebram-se de Yevgeny Primakov ou de Vladimir Putin, já no final do mandato do ex-presidente Boris Yeltsin (aí era claro quem governava o país). Em 2008 Putin será, em princípio, um Primeiro-Ministro mais poderoso do que quando o era em 1999. Portanto, à partida, não serão necessárias mudanças nas leis ou na Constituição.

A possibilidade de termos um PM russo poderoso é uma opção boa. Uma das fragilidades nas funções do Presidente, previstas na Constitição, é que o seu poder está separado da responsabilidade, já o governo é responsável pelos resultados das suas políticas.

Deste ponto de vista, o modelo presidencialista americano, seja talvez melhor: o Chefe de Estado é ao mesmo tempo Chefe de Governo. Equanto não se atrbuir estas falhas ao tipo de Constituição, esta futura situação, com um chefe de executivo com peso político, poderá permitir uma maior efectividade na acção do governo, o qual ainda está a lutar para recuperar das reformas administrativas realizadas por Vladimir Putin em 2004.

Putin foi alvo de muitas criticas de analistas, por ter aceite uma função que segundo eles irá ser indigno para ele - ao assumir responsabilidadades na reforma dos serviços sociais, no controlo da taxa de inflação entre outros desafios que podem prejudicar a sua popularidade. Embora, neste aspecto os analistas devem elogiá-lo em vez de o criticarem.

Respondemos, o melhor possível àquelas questões prévias! No entanto, surgem novas. Por exemplo, quão estável irá ser este "novo" sistema de governo com centros de decisão? Quanto tempo irá ficar Medvedev na presidência e Putin Primeiro-Ministro? O que pode acontecer em caso de uma querela entre ambos?

Em primeiro lugar, estabilidade requer um consenso entre Medvedev e Putin. Em segundo lugar, certamente teremos bastantes opositores e aliados tentando criar fricções entre eles. Em terceiro lugar, Medvedev e Putin trabalham juntos há mais de 17 anos e nunca tiveram grandes desentendimentos. Além disso, Vladimir Putin nunca se enganou acerca da lealdade das pessoas que ele promove. Mas diz a sabedoria "há sempre uma primeira vez para tudo"!

Na era Boris Yeltsin, ministros exonerados "vingavam-se" através da publicação das suas memórias contando toda a verdade sobre o Presidente. Na era de Putin ninguém o fez, à excepção de jornalistas, como Anna Politkovskaya, que foram assassinados em situações, mas vá lá dizer um pouco estranhas. Apesar de Mikhail Kasyanov ainda ser do tempo de Yeltsin, Putin antes de fazer a nomeação mais importante da sua carreira, ou seja, escolher um sucessor, teve de assegurar-se de que os seus cálculos estavam perfeitos.

Em conclusão, Dmitry Medvedev tornar-se-á no próximo presidente da Rússia e estará à frente dos destinos do Kremlin pelo menos durante quatro anos e Putin continuará PM durante o mesmo período, podendo voltar a tornar-se Presidente em 2012 ou em 2016. Mas, há aqui um paradoxo que reside no facto de apesar do seu resultado já estar pré-determinado, as eleições não irão cumprir a sua principal tarefa: a transferência de poderes de uma pessoa para outra.

Assim, é difícil chamarmos ao que vai acontecer no próximo dia 2 de Março eleições!

quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008

Pobreza e globalização no século XXI


Podia estar a falar dos dois vencedores da Super-Tuesday, Hillary Clinton e John MaCcain, mas já andava para abordar este assunto à algum tempo!

Apesar de não ser economista, mas como vou lendo algumas coisas, penso que era interessante abordar a temática da pobreza extrema, que diga-se é algo chocante em pleno século XXI com todos estes progressos técnicos e com a difusão da revolução tecnológica.

Assim, julgamos ser necessário abordar as contradições da globalização, porque afinal os benefícos deste fenómeno não são, nem serão, mundiais. Neste últimos quinze anos temos assistido ao aumento do fosso entre países que tiram dividendos da globalização nas suas vertentes política, económica e social (apesar de existirem ainda "bolsas" de pobreza neles); e países em desenvolvimento, ou certos países nesta condição em que o crescimento económico, cujo o exemplo africano é o melhor, em nada beneficiou as condições e nível de vida da população que continua a viver na pobreza, podendo esta ser extrema, mas isso é outro assunto que poderemos abordar futuramente! Prevemos que as contradições e incertezas da globalização ocuparão as agendas mundiais durante este século.

Mas antes de passarmos à discussão do tema, convém esclarecer em que consiste a pobreza extrema. Esta define-se como a situação de quem vive com menos de 1 US$ por dia (definição do Banco Mundial) e não tem assegurada a satisfação das suas necessidades básicas: alimentação, água potável, vestuário, habitação, atendimento sanitário, educação para os filhos. Nesse estado encontram-se 1100 mil milhões de pessoas, todas nos países em desenvolvimento. Houve uma pois, em 1981, a pobreza extrema afectava 400 milhões de pessoas; mas quase toda essa melhoria aconteceu quase exclusivamente no continente asiático, enquanto na África Subsahariana houve até um retrocesso, pois os rendimentos derivado do comércio de matérias-primas são os governantes e para as elites que os rodeiam. Actualmente em pleno século XXI, cerca de metade dos africanos vive numa pobreza extrema! É revoltante e dá que pensar!
  • Ideias para combater a pobreza
A luta contra a pobreza e a criação de programas para ajuda ao desenvolvimento por todo mundo, nomeadamente em África, foram um dos vários temas abordados nas últimas reuniões do G8 e na Declaração do Milénio das Nações Unidas, aprovada por todos os Estados-membros da Assembleia-Geral da ONU, na sua reunião de 2000. Nesta declaração foram apresentados os objectivos a atingir até 2015 (objectivos do Milénio). São eles: 1) Erradicar a pobreza extrema e a fome; 2) Conseguir a educação primária universal; 3) Promover a igualdade dos géneros humanos e dar mais poderes às mulheres; 4) Reduzir a mortalidade infantil; 5) Melhorar a saúde materna ; 6) Combater o HIV, malária e outras pandemias; 7) Assegurar a sustentabilidade do ambiente; 8) Desenvolver um a partnership global para o desenvolvimento. No primeiro paragráfo da introdução SG das NU, com o título In larger freedom: towards development, security and human rights for all, enumera as razões porque este relatório foi elaborado, a fim de alcançar os objectivos a que se propuseram até 2015. Este relatório foi baseado em dois estudos encomendados pelo SG. O primeiro, a cargo de um painel de Alto Nível, para as ameaças, desafios e mudança, que apresenta propostas para reforçar o sistema de segurança colectiva. O segundo, efectuado por 250 analistas, apresenta um plano de acção para alcançar as Millennium Goals no prazo estipulado. Dividido em seis capítulos, este relatório aborda separadamente e conjuntamente o triângulo "desenvolvimento, liberdade e paz", que se complementam, no pressuposto que não teremos desenvolvimento sem segurança, segurança sem desenvolvimento, e nenhum deles sem respeito pelos direitos humanos. Não há duvida que isto é verdade, os objectivos revelam ambição e ousadia. Mas numa análise ponderada apercebemo-nos do seguinte: faltam sete anos para 2015 e ainda estamos bem longe de alcançarmos os objectivos a que a Declaração do Milénio se propõem.

Alguns analistas referem que apesar da ambição das metas, elas são alcançáveis! A pobreza não apenas um problema de finanças nacionais mal geridas. A "ortoxia económica" não é única saída e nem sempre é a melhor opção! Qualquer medida deve ser acompanhada por medidas de base, que respondam às necessidades concretas dos pobres. É o que argumentam pessoas como o economista norte-americano, Jeffrey Sachs, através da sua ideia de "Economia curativa", Stuart Hart e K Prahalad que sugerem a introdução dos pobres no mercado; ou ainda a ideia de "Microcrédito" defendida pelo antigo prémio nobel da paz Mohammad Yunus.
  • A "Economia Clínica" de Jeffrey Sachs
Na visão de Jeffrey Sachs só poderemos atingir os objectivos do milénio através da implementação do que o economista norte-americano chama de "Economia Clínica" - uma economia que trate e cure a pobreza. O modelo desenvolvimentista imposto pelos Ocidentais, cujo modelo defendido FMI é um bom exemplo. O fundo, com a assinatura da carta de intenções, obrigava os Estados a que ele recorriam a uma política de austeridade económica, provocando tumultos, a falência de serviços públicos e a insolvência económica como aconteceu na Argentina em 2001. Essas políticas, na opinião de Sachs, estavam condenadas ao fracasso porque erravam logo no diagnóstico. A pobreza tem múltiplas causas, assim como a sua solução. Ter água potável, serviços de saúde que tenham condições mínimas são tão importantes como a estabilidade orçamental ou taxas de câmbio de divisas, tão defendida pelo FMI.

Ao presente, segundo o autor, a pobreza extrema concentra-se em regiões, em termos geográficos, completamente isoladas; em que doenças epidémicas são frequentes (ex: malária, febre amarela...); em que secas são comuns, destruindo as produções agrícolas; em que há carências de combustíveis, etc. Essas sociedades estão mergulhados no Ciclo Vicioso da Pobreza de Samuelson, não podendo sair desta situação pelos seus próprios meios necessitando de ajuda exterior. Mas esta tem de ser ajustada aos problemas causadores da miséria. Para isso, são necessárias um conjunto de acções básicas que Sachs enumerou: 1) Impulsionar a agricultura: onde poderia também intervir a FAO, mas se lhes fossem proporcionados fertilizantes, sistemas de rega e melhores sementes , os agricultores poderiam triplicar rapidamente as suas colheitas e tornar-se auto-suficientes; 2) Dar assistência sanitária básica: com um centro de saúde com um médico e uma enfermeira, mosquiteiros, medicamentos contra a malária antibióticos para tratar as infecções a que são tão propopensas as pessoas infectadas com o HIV/SIDA. Assim a Taxa de Mortalidade, nomeadamente a infantil, baixaria drasticamente; 3) Investimento na educação: Se se começasse por fornecer pelo menos uma refeição diária, melhoraria a saúde e o rendimento escolar das crianças reduzindo-se o insucesso escolar. Além disso, é fundamental formação profissional básica ensinando aos jovens as melhores técnicas de cultivo ou uma outra arte para terem rendimentos próprios; 4) Fornecer electricidade: através de uma ligação à rede eléctrica ou através de um gerador em cada aldeia de modo a que as populações pudessem extrair água potável do subsolo, moinhos para produzir farinha e outros instrumentos para necessidades básica; 5) Fornecimento de água potável e saneamento: algumas fontes/depósitos de água, bastariam para melhorar a saúde da população e evitar o risco da propagação de epidemias.

Estas são tão medidas básicas, mas que ainda não foram tomadas para iniciar o processo de desenvolvimento, quebrando este ciclo vicioso de pobreza. À luz das capacidades financeiras ocidentais o capital necessário é irrisório, mas que nem as pessoas na miséria, nem os seus governos, podem inciar esse desenvolvimento. Seria um investimento que geraria dividendos a curto prazo, iniciando-se um crescimento económico auto-sustentado. Tal investimento situa-se dos 0,7% do PIB dos países desenvolvidos, cumprindo uma promessa já acordada entre ambos.

Nas campanhas de rocolha de fundos para ajudar pessoas que vivem numa pobreza extrema em África, há um certo cepticismo quanto ao destino desses fundos que visam ajudar os países africanos. A constante corrpupção e violação dos princípios de boa governação dos governantes africanos está na origem desse cepticismo. Em parte têm razão, no entanto é uma justificação parcial. Há países bem governados que mesmo assim não conseguem prosperar; por outro lado, há países extremamente corruptos, conseguem um extraordinário desenvolvimento. Estranho não? Mas como dizemos cada caso, é um caso! Assim, Sachs contra-argumenta que há muita miséria em África, cuja razão não é política.

In: SACHS, Jeffrey: The End of poverty. Penguin Press, 2005.
  • As ideias de Stuart Hart e Coimbatore Prahalad
O que podem fazer os actores não-estatais para contribuir para o combate contra a pobreza? Quase de forma pavloviana respondemos o seguinte: donativos em em capital ou em géneros; voluntariado, etc. Além desta abordagem clássica, começa a surgir uma abordagem, pós-clássica que chama a atenção do papel das corporações no desenvolvimento.

Os académicos acima supracitados colaboraram (1988-2002) criando o conceito "base da pirâmide". Os 4 mil milhões de pessoas que vivem com menos de 2 US$ por dia e que constituem um mercado potencial. A teoria explica como é que as multinacionais podiam obter lucro e ao mesmo tempo contribuir para a redução da pobreza. Na sua visão o mercado e as empresas são actores essenciais para o desenvolvimento.

Prahalad, partilha a ideia de que existem óptimas oportunidades de negócio nos mercados a que ningém presta a devida atenção. Talvez a diplomacia económica chinesa atenda a certas ideias deste académico indiano! A obra de Prahalad aborda as necessidades dos pobres e como se lhes pode vender, sem paternalismos ou tentativas de neo-colonialismo, obtendo lucro, contribuindo para ajudar a erradicar com a pobreza.

A primeira parte da obra explica-nos como é constituído o mercado da "base da pirâmide", apelando ao mesmo tempo para a necessária visão dos consumidores, que merecem todo o respeito, toda a ajuda necessária, e que merecem bons serviços. Por outro lado, refere que o comportamento de um consumidor de um país pobre é exactamente igual ao de um de um país desenvolvido. Portanto, só um mercado orientado para as necessidades do cliente contribuirá de forma decisiva para o desenvolvimento dessas sociedades. O autor até refere que as multinacionais nesta ajuda podem inovar os seus produtos e melhorar a qualidade dos seus serviços. Apesar disso, o autor não se perde num extremo idealismo, pois aborda nesta parte assuntos recorrentes nestes Estados, como a corrupção.

A segunda, e última parte da obra, descreve exemplos práticos de empresas que abordaram esses mesmos mercados, a que não se presta a devida atenção, consegundo conciliar dois objectivos: lucro e contribuir de forma activa para um desenvolvimento durável. Desde o sector secundário ao sector terciário é possível desenvolvermo-nos e inovarmos, mesmo opoerando num mercado que à partida tem pouco potencial.

Um CD completa obra com um vídeo de cerca de meia hora com casos de sucessos de empresas nesses mercados.

In: PRAHALAD, Coimbatore: The Fortune at the bottom of the Pyramid. Wharton School Publishing, 2004
  • O Microcrédito de Mohammad Yunus
Em 1976, Mohammad Yunus e o Grammeen Bank (por ele criado), têm exercido uma acção preponderante na luta contra a erradicação da pobreza através da concessão de microcréditos. O seus méritos fora finalmente reconhecidos em 2005 pela ONU, que considerou esse ano como o "Ano Internacional do Microcrédito", assim como ordenou o aumento do número de beneficiários. Entretanto a Cimeira Mundial do Microcrédito (2004) estimava que, com a fórmula de Yunus, se conseguiria o número de pobres em 274 milhões de pessoas. Mas o maior reconhecimento do trabalho deste bengali, veio em 2006 com atribuição do Prémio Nobel da Paz desse ano a Yunnus e ao seu banco.

De acordo com o PNUD, o microcrédito pode ser essencial na luta contra a pobreza extrema. Exemplos práticos: facilitam o acesso ao ensino e a emancipação das mulheres.

Perante este estrondoso sucesso, a ideia de Yunus começou a estender-se do Bangladesh para o resto do mundo, nomeadamente na América Latina e África, isto apesar desta ideia já ser aplicada na Ásia desde a década de 1990. Mas a prioridade é claramente o continente africano onde os níveis de pobreza extrema são alarmantes, aliás a proclamação de 2005 como o "Ano Internacional do Microcrédito", serviu de ponto de partida para a acção em África.

Mas esta ideia extraordinário debate-se com inúmeros problemas, nomeadamente devido à falta de apoio das diversas OIG como o Banco Mundial (em que apenas dá 1% das suas ajudas ao microcrédito) ou o Banco Europeu de Investimentos (em que somente o,1% das ajudas são dirigidas ao microcrédito). Assim, no entender de Yunus as OIG dirigem incorrectamente os os fundos para a ajuda internacional aos países carenciados. Estes muitas vezes são muitas vezes dirigidos aos governos nacionais que depois distribuem a ajuda. Mas infelizmente já sabemos onde vão parar esses fundos com tanta burocracia e corrpupção, às contas pessoas dos ditadores africanos. Sobrando quase nada para quem de facto precisa!

O microcrédito poderia servir de aliança entre governos, OIG e sector privado, a fim de estender a fórmula à escala global. As NU mostraram interesse em facilitar o acesso ao microcrédito, assim como em criar novas formas de ajuda de tipo "micro", como o microfinanciamento ou a criação de microempresas, etc. Mas, não podemos esquecer de que a ajuda estatal é sempre necessária. Além disso, podemos mesmo aplicar a fórmula de Yunus em países desenvolvidos, como forma de apoio a quem não pedir obter crédito junto da banca, a imigrantes, etc.

Quanto a Mohammad Yunus quer estar na vanguarda. A sua última proposta consiste na concessão de créditos de 9 US$ a pobres, para eliminar as "bolsas" de pobreza dos Países em Desenvolvimento. O microfinanciamento também tem sido usado como uma tentativa de reavivar a economia destes países, como a ex-repúblicas soviéticos ou países que sairam de uma guerra.
  • À guisa de conclusão
Em suma, por muitas boas ideias/sugestões que surjam, prevemos que num futuro próximo e apesar de todos os progressos proporcionados pela globalização, capazes de teoricamente de contribuir para a redução desta pobreza e outras desigualdades, continuaremos a ver disparidades tanto nos países em desenvolvimento como nos Estados-membros da OCDE, porque a lógica Realista da ciência das Relações Internacionais não foi purgada do SI como muitos julgavam com o fim da Guerra-Fria. Infelizmente continuaremos a ver imagens semelhantes às que apresento...

Segundo dados da UNESCO, as taxas de analfabetismo diminuirão até ao fim de 2020 nos indivíduos com quinze ou mais anos, mais ainda seráo dezassete vezes mais elevados nos países menos avançados e em desenvolvimento. Mas mais revoltante, já anunciado por organizações como a ONU e a OMS, é o analfabetismo (que estima-se que seja duas vezes superiores à dos homens), a desigualdade do rendimentos, no caso das mulheres. Quanto à esperança média de vida, as disparidades entre nações mais desenvolvidades e menos desenvolvidas começou a diminuir 1950 e 1980. Mas nem aqui temos boas notícias pois segundo previsões da US Census Bureau mais de quarenta países, que incluem Estados africanos, Ásia Central e da Rússia terão em 2010 uma esperança média de vida inferior por volta de 2010 inferior à da de 1990, devido ao flagelo da pandemia do HIV/SIDA.

Só uma palavra final para os grandes líderes mundiais: a continuação deste cenário de pobreza endémica será um campo fértil para a recruta de terroristas; um safe haven para o crime organizado e nós, enquanto países desenvolvidos, continuaremos a ter problemas com a imigração ilegal maciça! A solução não reside só nos países países desenvolvidos e Organizações Internacionais devemos incluir também outros actores das Relações Internacionais não-estatais, como multinacionais. A luta pela erradicação deverá residir num verdadeiro "multi-multilateralismo"...

Para uma melhor compreensão da temática da pobreza, desenvolvimento e fome recomendo a leitura de "The Globalization of world politics", editado por John Baylis e Steven Smith. Oxford University Press, 2001.